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NASCER E CRESCER
revista do hospital de crianças maria pia ano 2006, vol XV, n.º 2
65artigos originais
RESUMO Introdução: A aterosclerose tem
início na infância e progride durante a adolescência. Nas últimas décadas veri- fi ca-se uma tendência para o aumento da adiposidade corporal e distúrbios metabó- licos associados. A sua prevenção, detec- ção e correcção precoces podem reduzir a incidência de doença cardiovascular na idade adulta. As recomendações actuais para o rastreio de dislipidémia apontam para um rastreio selectivo baseado na identifi cação de vários factores de risco.
Objectivo: Conhecer o perfi l lipídi- co, a prevalência de sobrepeso e obesi- dade, a história familiar de doença car- diovascular e os hábitos alimentares en- tre 88 adolescentes, observados durante exame global de saúde dos 11-13 anos, no Centro de Saúde da Sr.ª da Hora - Ma- tosinhos.
Material e Métodos: O IMC foi ava- liado e classifi cado segundo as curvas de crescimento do CDC- Centres of disease control- National Centrer for Health Sta- tistics dos Estados Unidos. A classifi ca- ção do perfi l lipídico baseou-se nos cri- térios do National Cholesterol Education Program (NCEP) para o Colesterol Total e Colesterol LDL e do Lipid Research Cli- nics Prevalence Study (LRC) para os tri- glicerideos e colesterol HDL. Os hábitos
alimentares foram avaliados através da aplicação de um inquérito de frequência alimentar. A análise estatística dos dados foi efectuada através do teste do Fisher, tendo sido considerados signifi cativos va- lores de p<0,05.
Resultados: A prevalência global de obesidade e sobrepeso foi de 11% e 23%, respectivamente, tendo sido encontrada uma prevalência maior no sexo feminino. Verifi caram-se alterações do perfi l lipidico em 26% dos adolescentes e valores bor- der-line em 16%. Não foram encontradas diferenças, com signifi cado estatístico, entre a existência de obesidade ou de hiperLDLcolesterolémia e as frequências alimentares. A prevalência de história pa- rental positiva para dislipidemia nos ado- lescentes, com alterações do perfi l lipidico (26%), foi igual à prevalência global.
Comentário: A elevada prevalência de obesidade e dislipidemia encontrada nesta população, constitui um dado parti- cularmente preocupante, uma vez que a prevalência de obesidade na adolescên- cia é fortemente preditiva de obesidade e factores de risco cardiovasculares as- sociados na idade adulta, realçando-se a necessidade de instituição precoce de medidas preventivas e de hábitos de vida saudáveis. Em relação aos hábitos alimentares destacam-se uma baixa in- gestão de legumes e peixe e um elevado consumo diário de produtos de pastela- ria/confeitaria e refrigerantes e sumos, constando-se globalmente, uma dieta que se afasta da dieta mediterrânica, que nos caracterizava no passado.
Em relação à história familiar dos adolescentes com dislipidemia, os dados obtidos estão de acordo com resultados de estudos anteriores que concluem que os critérios de rastreio de dislipidémia, baseados na história parental não ofe-
recem vantagem em relação ao rastreio aleatório na identifi cação de jovens com hipercolesterolémia, o que parece pôr em causa a estratégia baseada no risco reco- mendada pelo NCEP e AAP. Assim, o ras- treio de dislipidémia deve ser fortemente considerado em todos os adolescentes.
Palavras-Chave: Adolescentes, per- fi l lipidico, obesidade, doença cardiovas- cular
Nascer e Crescer 2006; 15(2): 65-70
INTRODUÇÃO A aterosclerose tem início na infân-
cia e progride durante a adolescência(1). À medida que se assiste à ocidentalização do padrão alimentar, verifi ca-se uma ten- dência para o aumento da adiposidade corporal e uma maior prevalência de dis- lipidémia e outros distúrbios metabólicos, que podem ter início na infância e são, frequentemente, assintomáticos(2,3).
Nos Estados Unidos (EUA), estatís- ticas recentes demonstram que 65% dos adultos e 30% das crianças e adolescen- tes, entre 6 e 19 anos, têm excesso de peso ou obesidade, tendo a prevalência de obesidade nesta faixa etária duplicado nas últimas duas décadas(4,5,6). Em Por- tugal dados de 2003/2004 apontam para uma prevalência de excesso de peso de 20,3% e de obesidade entre 6,7% a 11,3%, em crianças e adolescentes(7,8).
A obesidade e morbilidades asso- ciadas, como dislipidémia, HTA e resis- tência à insulina, constituem factores de risco cardiovascular cumulativos. O Bogalusa Heart Study, estudo realizado nos EUA, que relaciona o excesso de peso em crianças e adolescentes e estes factores de risco, constitui uma das mais fi rmes evidências desta relação(9).
Perfi l Lipídico, Prevalência de Obesidade e Hábitos Alimentares de uma População de Adolescentes
Cláudia Ferraz1, Georgeta Oliveira2, Sérgia Soares2, Elizabeth Marques3, Miguel Costa4, Teresa Neto5
__________
1 Interna Complementar de Pediatria, Departa- mento de Pediatria do Hospital Pedro Hispano, Matosinhos, Portugal 2 Departamento de Pediatria do Hospital Pedro Hispano, Matosinhos 3 Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de São Miguel-Oliveira de Azeméis 4 Serviço de Pediatria do Hospital São Miguel e Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de São Miguel - Oliveira de Azeméis 5 Centro de Saúde da Srª da Hora – Unidade Local de Saúde de Matosinhos SA
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Há uma correlação directa entre os níveis de colesterol, particularmente li- poproteinas de baixa densidade (c-LDL) e aterosclerose. Em relação ao coleste- rol de lipoproteinas de alta densidade (c-HDL), parece existir uma relação in- versa, ou seja, níveis baixos aumentam o risco de aterosclerose(3). É importante prevenir, detectar e corrigir precocemen- te a presença destes factores de risco na infância e adolescência, pelo possí- vel impacto no desenvolvimento de ate- rosclerose e redução da incidência de doença cardiovascular em adultos(10).
As recomendações actuais para o rastreio de dislipidémia da Academia Americana de Pediatria e American He- art Association (AAP/AHA) apontam para um rastreio selectivo, envolvendo a iden- tifi cação de vários factores de risco car- diovascular(2,10).
Os Quadros I e II sintetizam as reco- mendações para o rastreio e estratifi ca- ção do risco, segundo o National Choles-
terol Education Program Expert Panel on Blood Cholesterol Levels in Children and adolescents dos EUA (NCEP-EP), a Aca- demia Americana de Pediatria (AAP) e a American Heart Association (AHA)(2,3,10).
Uma vez que os níveis de colesterol obtidos na adolescência são preditivos dos niveis de colesterol na idade adulta, o rastreio deve ser considerado em todos os adolescentes(2).
OBJECTIVO O objectivo do estudo foi conhecer o
perfi l lipídico, a prevalência de sobrepeso e obesidade, a história familiar e os há- bitos alimentares de uma população de adolescentes.
MATERIAL E MÉTODOS O estudo foi realizado em adoles-
centes, dos observados durante exame global de saúde dos 11-13 anos, na Uni- dade do Farol do Centro de Saúde da Sr.ª da Hora – Matosinhos. Foram convocados
208 adolescentes, inscritos em médico de família, que completavam 13 anos no ano do estudo . Compareceram ao exame glo- bal de saúde 140 adolescentes.
Dos adolescentes avaliados, 88 foram incluídos neste estudo, sendo 50% do sexo masculino. Os critérios de exclusão foram: insufi ciência de dados relativos ao inquérito alimentar e história familiar, adolescentes portadores de pa- tologia crónica passível de infl uenciar os hábitos alimentares ou antropometria ou que condicione medicação crónica sus- ceptível de alterar os resultados do perfi l lipídico.
Foram analisados os seguintes pa- râmetros:
História familiar Foi inquirida a existência de Obesi-
dade, Dislipidémia, Diabetes, Hipertensão arterial, Enfarte agudo do miocárdio, An- gina pectoris e Acidente vascular cerebral nos familiares directos (pais avós, tios e irmãos) dos adolescentes avaliados.
Hábitos alimentares Foi aplicado um inquérito de fre-
quência alimentar, usado na Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de S. Mi- guel – Oliveira de Azeméis, avaliando a frequência de consumo de vários alimen- tos e tipos de confecção culinária:
Leite, Iogurtes, Queijo, Carne de Vaca, Porco, Aves e coelho, Peixes gor- dos e magros, Marisco, moluscos e crus- táceos, Ovos, Produtos de pastelaria, confeitaria e doçarias, Refrigerantes e sumos, Bebidas alcoolicas, Grelhados, Cozidos, Estufados, Assados e Fritos.
Foram ainda avaliadas a ingestão e constituição do pequeno-almoço, meren- das, almoço e jantar, e a inclusão de fru- ta, sopa e vegetais nestas refeições.
O questionário requeria a identifi - cação, tendo sido preenchido pelos ado- lescentes, no domicilio, quando possível com a ajuda dos pais.
Antropometria O Indice de Massa Corporal (IMC)
ou Índice de Quetelet (peso em kilogra- mas dividido pelo quadrado da altura em metros) foi usado como medida de adi- posidade.
♦ Crianças e adolescentes cujos pais, avós ou tios directos com idade ≤ 55 anos, tenham aterosclerose ou suas sequelas, ou seja, doença cardiovascular prematura: aterosclerose coronária, enfarte agudo do miocárdio, angina Pectoris, HTA, doença vas- cular periférica, doença cerebrovascular, morte súbita;
♦ Pais com Colesterol total superior a 240 mg/dL;
♦ História familiar desconhecida;
♦ Crianças e Adolescentes com outros factores de risco:
� Estilo de vida sedentário, falta de exercício físico regular; � História dietética rica em gorduras particularmente saturadas;
� Obesidade; � Tensão arterial elevada; � Tabagismo; � Ingestão de álcool; � Medicações e patologias associadas a hiperlipidemia (por exemplo: diabetes mellitus, sín-
drome nefrótico, anticonvulsivantes, ácido retinoico, contraceptivos orais, corticosteroides).
Quadro I - Recomendações para Rastreio Selectivo de dislipidemia (2,3,10)
Quadro II - Estratifi cação do Risco (2,10)
Aceitável “Border-line” Risco Elevado
CT (mg/dl) <170 170-199 ≥ 200
C- LDL (mg/dl) <110 110-129 ≥130
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O IMC foi classifi cado segundo as curvas de crescimento do CDC – Centers of disease control – National Center for Health Statistics dos EUA.
Considerou-se: Sobrepeso: IMC ≥ percentil 85
<percentil 95 para sexo e idade. Obesidade: IMC ≥ percentil 95 para
sexo e idade.
Perfi l Lipidico O perfi l lipídico inclui o doseamento
de colesterol total (CT), colesterol HDL (c-HDL) e triglicerídeos (TG). Foi efectu- ado após 12 horas de jejum tendo sido realizado em laboratórios no ambulatório. O valor do colesterol LDL (c-LDL) foi cal- culado usando a fórmula de Friedewald: c-LDL=CT- [c-HDL+(TG/5]
A classifi cação do perfi l lipídico ba- seou-se nos critérios do National Choles- terol Education Program (NCEP), para o CT e c-LDL e do Lipid Research Clinics Prevalence Study (LRC), para os TG e c-HDL.
O Risco foi estratifi cado segundo o quadro II considerando-se:
• Hipercolesterolémia: CT ≥ 200 mg/dl • CT “border-line”/elevado: CT ≥ 170
mg/dl • HiperLDL-colesterolémia: c-LDL ≥
130 mg/dl • c-LDL • border-line: c-LDL ≥ 110 mg/dl • Hipertrigliceridémia: TG superior ao
percentil 95 para idade e sexo. • HipoHDL-colesterolémia: c-HDL infe-
rior ao percentil 5 para idade e sexo. Os adolescentes com colesterol to-
tal border-line e c-HDL acima deste valor foram considerados de baixo risco.
A análise estatística dos dados foi efectuada através do teste do fi sher, ten- do sido considerados signifi cativos valo- res de p<0,05.
RESULTADOS Nesta população de adolescentes
(n=88), a prevalência global de obesida- de e sobrepeso foi de 11% e 23%, res- pectivamente. Um adolescente apresen- tava magreza, ou seja, IMC inferior ao percentil 3. (Figura 1)
Constatou-se uma diferença entre sexos: a prevalência de sobrepeso e
obesidade foi de 20,5% e 6,8%, respec- tivamente, no sexo masculino e, 25% e 15,9%, no sexo feminino. Estas diferen- ças, contudo, não se revelaram estatisti- camente signifi cativas (Figura 2).
Verifi caram-se alterações do per- fi l lipidico em 26% dos adolescentes e valores de CT e /ou C-LDL “border-line” em 16%. Entre os adolescentes com dislipidemia 3,4% apresentaram hiperL- DL-colesterolémia (Hiper c-LDL); 11,4% hipoHDL-colesterolémia (Hipo c-HDL) e 14,8%, hipertrigliceridémia. (Figura 3) Segundo a classifi cação utilizada (Qua- dro II) apenas 58% dos adolescentes
apresentavam valores aceitáveis ou de baixo risco de CT e C-LDL.
A prevalência de dislipidemia entre os adolescentes com sobrepeso e obesi- dade foi de 48% e 50%, respectivamente.
A prevalência de uma história fa- miliar positiva para diabetes, obesidade, dislipidemia, HTA e doença cardiovascu- lar está apresentada na fi gura 4.
De realçar que quase metade (49%) dos adolescentes apresenta história fa- miliar de dislipidemia e 26% uma história parental positiva.
Quando comparamos as prevalên- cias de história familiar positiva para as
Figura 2 - Distribuição dos percentis de IMC por sexos
Figura 3 - Perfi l Lipídico
Figura 1 - Percentil de IMC
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patologias referidas, nos adolescentes com obesidade, dislipidemia e um sub- grupo com Hipo c-HDL em relação ao total, constatamos que:
A prevalência de história familar po- sitiva para doença cardiovascular, HTA e diabetes foi maior nos adolescentes com obesidade e Hipo c-HDL compara- tivamente à população não obesa e sem hipo c-HDL. Os adolescentes com obesi- dade apresentavam maior prevalência de familiares obesos. Estas diferenças, con- tudo, não se revelaram estatisticamente signifi cativas.
Os adolescentes com dislipidemia não apresentavam diferenças com signi- fi cado estatístico na prevalência de his- tória familar positiva para as patologias inquiridas, nomeadamente dislipidemia. A prevalência de história parental de dis-
lipidemia positiva foi igual à prevalência global (26%) (fi gura 5).
Em relação ao inquérito de frequên- cia de consumo alimentar os resultados são apresentados nos quadros III e IV.
Diariamente 90% dos adolescentes bebiam leite, na sua maioria (91%) leite meio-gordo. Em relação aos derivados, 74% e 45% ingeriam iogurtes e queijo mais de 3 vezes por semana. Destes, 59% e 52% optavam por iogurtes e quei- jos magros ou pouco gordos.
Os alimentos, como carne de vaca, porco, aves e ovos, eram ingeridos com regularidade, entre uma e 3 vezes por se- mana, na maioria dos casos. Referiram ingerir carne de vaca ou porco, diaria- mente, 13% dos adolescentes. Apenas 9% consomem peixe diariamente, encon- trando-se, uma parcela signifi cativa de
adolescentes que nunca, ou raramente, o ingeriam: 38% no caso dos peixes gor- dos, e 19%, no caso dos peixes magros. A ingestão de moluscos, mariscos e crus- táceos foi reduzida.
Em relação aos produtos de pas- telaria, confeitaria e doçarias, um quarto dos adolescentes referia consumir estes produtos diariamente, e 40% de duas a três vezes por semana. Os refrigeran- tes e sumos também são ingeridos com muita frequência: 49% dos adolescentes consomem-nos diariamente. Todos os adolescentes avaliados negaram o con- sumo regular de bebidas alcoólicas.
Em relação à confecção culinária (quadro IV), constatámos uma maior op- ção por grelhados, estufados e cozidos. Apenas 6 e 5% dos adolescentes refe- riam ingerir diariamente fritos e assados.
No que diz respeito aos constituin- tes importantes das principais refeições, como sopa, vegetais/ legumes no prato e fruta, constatámos que: 45% dos adoles- centes ingeriam, diariamente sopa, dos quais 30%, ao almoço e jantar, mas 11% referiam nunca o fazer.
Estas percentagens são menores em relação aos vegetais e legumes: apenas 26% ingerem diariamente este acompanhamento, e 14% nunca o faz. In- geriam diariamente fruta 59% dos casos: 53% como sobremesa, dos quais 43% ao almoço e ao jantar e 16%, às merendas. (Figura 6)
O grupo de adolescentes com so- brepeso ou obesidade apresentava uma menor percentagem de individuos que comiam diariamente sopa e fruta: 29 % e 32%, respectivamente.
Também o grupo de adolescentes com dislipidemia apresentava um menor consumo diário destes alimentos: 22 e 43%. Estas diferenças não se revelaram no entanto com signifi cado estatístico.
Em relação à constituição do pe- queno-almoço verifi cámos que o leite e derivados, em conjunto com cereais e derivados, entravam na constituição de 84% dos pequenos almoços. Em 15%, este era constituído apenas por leite e derivados e em 1% por cereais. Apenas dois casos incluiam a fruta ou sumo na- tural. Dos cereais, os preferidos eram os cereais de pequeno almoço (47%), segui-
Quadro IV - Frequência (%) de confecção culinária
Nunca Raro 1x/sem 2x/sem 3x/sem Diário
Cozidos 0 14 19 35 22 10
Grelhados 0 11 15 30 28 16
Estufados 0 11 27 40 16 6
Assados 0 9 50 30 6 5
Fritos 1 24 22 24 23 6
Quadro III - Frequência (%) de ingestão de diferentes grupos de alimentos
Nunca Raro 1x/sem 2x/sem 3x/sem Diario
Leite 1 3 0 0 5 90
Iogurtes 0 13 3 10 30 44
Queijo 9 24 11 11 22 23
Vaca 1 9 23 31 27 9
Porco 1 8 28 33 24 6
Aves e coelho 2 14 18 36 27 3
Peixes gordos 3 35 24 20 10 8
Peixes magros 2 17 23 30 20 8
Marisco, moluscos e crustáceos 15 73 11 1 0 0
Ovos 1 10 31 34 18 6
Pastelaria, confeitaria e doçarias 0 15 20 20 19 26
Refrigerantes e sumos 3 13 16 8 11 49
Bebidas alcoólicas 97 3 0 0 0 0
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dos do tradicional pão (39%) com mantei- ga, fi ambre ou compota. (Figura 7)
Não foram encontradas diferen- ças, estatisticamente signifi cativas, nas frequências alimentares e de confecção alimentar no grupo de adolescentes com sobrepeso e obesidade. Também os ado- lescentes com dislipidemia não apresen- tavam diferenças com signifi cado esta- tístico no consumo de ovos, moluscos e mariscos, carnes, peixe, leite gordo, fritos e assados e no caso das hipertriglicerí- demias, de produtos de pastelaria e con- feitaria, refrigerantes ou outras bebidas açucaradas.
DISCUSSÃO Nesta população de adolescentes,
a prevalência de sobrepeso e obesidade foi de 20,5% e 6,8%, no sexo masculino e 25% e 15,9%, no sexo feminino. A preva- lência global de obesidade e sobrepeso foi de 11% e 23%, respectivamente. Esta prevalência é concordante com estudos recentes nacionais na população pediá- trica(7,8) e inferior aos valores encontrados
na população americana (NHANES IV: 1999-2000)(6).
A prevalência de obesidade e so- brepeso foi maior no sexo feminino: 40,9% das raparigas e 27,3% rapazes apresentavam sobrepeso ou obesidade. Embora esta diferença não atinga signi- fi cado estatístico nesta amostra, está de acordo com outros estudos publicados em Portugal. Dados de Inglaterra e Es- panha, apontam igualmente para uma maior prevalência entre raparigas, mas, em outros paises, como a Itália, a preva- lência é maior nos rapazes(8,12).
A prevalência de dislipidemia (CT, LDL, Hipo-HDL) foi mais baixa que a encontrada no Bogalusa Heart Study, no grupo de 11-17 anos, faixa etária que mais se aproxima da estudada(9). Curio- samente, a prevalência de hipertriglice- ridemia foi ligeiramente superior (14,8% versus 8%), facto que pode estar rela- cionado com o excesso de hidratos de carbono simples, ingerido por esta po- pulação (refrigerantes, produtos de pas- telaria, cereais de pequeno-almoço, nu-
tricionalmente desiquilibrados e com alto teor de açúcares de absorção rápida), baixa ingestão de peixe e acidos gordos ómega3. O signifi cado de um valor eleva- do de triglicerídeos na infância e o risco cardiovascular em adulto não é claro mas estas alterações têm uma boa resposta à diminuição de peso e às modifi cações dietéticas(10).
A prevalência de história familiar po- sitiva para dislipidemia, nos adolescentes com dislipidemia, foi de 26%, igual à pre- valência total. Este dado está de acordo com um estudo semelhante públicado na Pediatrics, em 2004(13), que conclui que os critérios baseados no rastreio da histó- ria parental não oferecem vantagem em relação ao rastreio aleatório na identifi ca- ção de jovens com hipercolesterolémia, o que parece pôr em causa a estratégia ba- seada no risco recomendada pelo NCEP e AAP.
Os dados encontrados apoiam a recomendação do rastreio universal das alterações do perfi l lipídico na população adolescente.
Figura 7 - Constituição do pequeno almoço: consumo de cereais e derivados
Figura 4 - História Familiar Figura 5 - História Familiar
Figura 6 - Consumo de Sopa, Vegetais e Fruta
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LIPID PROFILE, PREVALENCE OF OBESITY AND DIETARY HABITS IN A POPULATION OF ADOLESCENTS
ABSTRACT Introduction: A t h e r o s c l e r o s i s
begins in childhood and progresses through adolescence and adulthood. In the last decades there has been a trend for increase of adiposity and prevalence of cardiovascular disease with associated metabolic disturbances. Prevention, early detection with treatment of these risk factors can prevent the latter development of cardiovascular disease.
There are specifi c recommendations for selective screening involving the identifi cation of various cardiovascular risk factors.
Objective: This study was conducted to evaluate lipid profi le, prevalence of overweight and obesity, family history of cardiovascular risk factors and dietary habits among 88 adolescents observed during a global health visit, in Srª da Hora Health Centre-Matosinhos.
Methods and Procedures: Body Mass Index (BMI) classifi cation was based on CDC Growth Charts- Centres of disease control- National Centre for Health Statistics dos EUA. Total cholesterol and Low-density lipoproteins cholesterol (LDL-C) classifi cation was based on National Cholesterol Education Program (NCEP) criteria. Triglycerides and Hight-density lipoproteins cholesterol (HDL-C) classifi cation was based on Lipid Research Clinics Prevalence Study. The dietary habits were evaluated by a frequency questionnaire.
Statistical analisys included Fisher test. The value of signifi cance was considered for p<0,05.
Results: Global prevalence of obesity and overweight was 11% and 23% respectively, with greater prevalence of female gender. Lipid profi le was abnormal in 26% adolescents and 16% presented borderline values. There were no differences on the frequency of ingestion of the foods inquired. The prevalence of a positive family history of abnormal lipid profi le was the same among patients with hyperlipidemia and total population.
Discussion: The high prevalence of overweight, obesity and abnormal lipid profi le in this population is particular worrisome since adolescent obesity strongly predicts obesity in adulthood and associated cardiovascular risk factors, enhancing the needs for prevention. In the dietary habits we found a low ingestion of vegetables and fi sh and high ingestion of bakery and sweet foods and beverages, a diet that is globally different from the Mediterranean diet that used to characterize us.
The results obtained are concordant with previous studies concluding that criteria for screening based on parental history seem to offer no advantage over random screening in the identifi cation of young people with abnormal lipid profi le therefore not supporting the risk based strategy recommended by NCEP and American Academy of Pediatrics.
Lipid profi le screening should be considered among all adolescents.
Keywords: Adolescents, lipid profi le, obesity, cardiovascular disease
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CORRESPONDÊNCIA Trav. Nova de Salgueiros, 58 4400-575 V. N. de Gaia Portugal Tel.: (00351) 965 056 830 E-mail: santosferraz@clix.pt
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RESUMO Introdução: A aterosclerose tem
início na infância e progride durante a adolescência. Nas últimas décadas veri- fi ca-se uma tendência para o aumento da adiposidade corporal e distúrbios metabó- licos associados. A sua prevenção, detec- ção e correcção precoces podem reduzir a incidência de doença cardiovascular na idade adulta. As recomendações actuais para o rastreio de dislipidémia apontam para um rastreio selectivo baseado na identifi cação de vários factores de risco.
Objectivo: Conhecer o perfi l lipídi- co, a prevalência de sobrepeso e obesi- dade, a história familiar de doença car- diovascular e os hábitos alimentares en- tre 88 adolescentes, observados durante exame global de saúde dos 11-13 anos, no Centro de Saúde da Sr.ª da Hora - Ma- tosinhos.
Material e Métodos: O IMC foi ava- liado e classifi cado segundo as curvas de crescimento do CDC- Centres of disease control- National Centrer for Health Sta- tistics dos Estados Unidos. A classifi ca- ção do perfi l lipídico baseou-se nos cri- térios do National Cholesterol Education Program (NCEP) para o Colesterol Total e Colesterol LDL e do Lipid Research Cli- nics Prevalence Study (LRC) para os tri- glicerideos e colesterol HDL. Os hábitos
alimentares foram avaliados através da aplicação de um inquérito de frequência alimentar. A análise estatística dos dados foi efectuada através do teste do Fisher, tendo sido considerados signifi cativos va- lores de p<0,05.
Resultados: A prevalência global de obesidade e sobrepeso foi de 11% e 23%, respectivamente, tendo sido encontrada uma prevalência maior no sexo feminino. Verifi caram-se alterações do perfi l lipidico em 26% dos adolescentes e valores bor- der-line em 16%. Não foram encontradas diferenças, com signifi cado estatístico, entre a existência de obesidade ou de hiperLDLcolesterolémia e as frequências alimentares. A prevalência de história pa- rental positiva para dislipidemia nos ado- lescentes, com alterações do perfi l lipidico (26%), foi igual à prevalência global.
Comentário: A elevada prevalência de obesidade e dislipidemia encontrada nesta população, constitui um dado parti- cularmente preocupante, uma vez que a prevalência de obesidade na adolescên- cia é fortemente preditiva de obesidade e factores de risco cardiovasculares as- sociados na idade adulta, realçando-se a necessidade de instituição precoce de medidas preventivas e de hábitos de vida saudáveis. Em relação aos hábitos alimentares destacam-se uma baixa in- gestão de legumes e peixe e um elevado consumo diário de produtos de pastela- ria/confeitaria e refrigerantes e sumos, constando-se globalmente, uma dieta que se afasta da dieta mediterrânica, que nos caracterizava no passado.
Em relação à história familiar dos adolescentes com dislipidemia, os dados obtidos estão de acordo com resultados de estudos anteriores que concluem que os critérios de rastreio de dislipidémia, baseados na história parental não ofe-
recem vantagem em relação ao rastreio aleatório na identifi cação de jovens com hipercolesterolémia, o que parece pôr em causa a estratégia baseada no risco reco- mendada pelo NCEP e AAP. Assim, o ras- treio de dislipidémia deve ser fortemente considerado em todos os adolescentes.
Palavras-Chave: Adolescentes, per- fi l lipidico, obesidade, doença cardiovas- cular
Nascer e Crescer 2006; 15(2): 65-70
INTRODUÇÃO A aterosclerose tem início na infân-
cia e progride durante a adolescência(1). À medida que se assiste à ocidentalização do padrão alimentar, verifi ca-se uma ten- dência para o aumento da adiposidade corporal e uma maior prevalência de dis- lipidémia e outros distúrbios metabólicos, que podem ter início na infância e são, frequentemente, assintomáticos(2,3).
Nos Estados Unidos (EUA), estatís- ticas recentes demonstram que 65% dos adultos e 30% das crianças e adolescen- tes, entre 6 e 19 anos, têm excesso de peso ou obesidade, tendo a prevalência de obesidade nesta faixa etária duplicado nas últimas duas décadas(4,5,6). Em Por- tugal dados de 2003/2004 apontam para uma prevalência de excesso de peso de 20,3% e de obesidade entre 6,7% a 11,3%, em crianças e adolescentes(7,8).
A obesidade e morbilidades asso- ciadas, como dislipidémia, HTA e resis- tência à insulina, constituem factores de risco cardiovascular cumulativos. O Bogalusa Heart Study, estudo realizado nos EUA, que relaciona o excesso de peso em crianças e adolescentes e estes factores de risco, constitui uma das mais fi rmes evidências desta relação(9).
Perfi l Lipídico, Prevalência de Obesidade e Hábitos Alimentares de uma População de Adolescentes
Cláudia Ferraz1, Georgeta Oliveira2, Sérgia Soares2, Elizabeth Marques3, Miguel Costa4, Teresa Neto5
__________
1 Interna Complementar de Pediatria, Departa- mento de Pediatria do Hospital Pedro Hispano, Matosinhos, Portugal 2 Departamento de Pediatria do Hospital Pedro Hispano, Matosinhos 3 Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de São Miguel-Oliveira de Azeméis 4 Serviço de Pediatria do Hospital São Miguel e Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de São Miguel - Oliveira de Azeméis 5 Centro de Saúde da Srª da Hora – Unidade Local de Saúde de Matosinhos SA
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66 artigos originais
Há uma correlação directa entre os níveis de colesterol, particularmente li- poproteinas de baixa densidade (c-LDL) e aterosclerose. Em relação ao coleste- rol de lipoproteinas de alta densidade (c-HDL), parece existir uma relação in- versa, ou seja, níveis baixos aumentam o risco de aterosclerose(3). É importante prevenir, detectar e corrigir precocemen- te a presença destes factores de risco na infância e adolescência, pelo possí- vel impacto no desenvolvimento de ate- rosclerose e redução da incidência de doença cardiovascular em adultos(10).
As recomendações actuais para o rastreio de dislipidémia da Academia Americana de Pediatria e American He- art Association (AAP/AHA) apontam para um rastreio selectivo, envolvendo a iden- tifi cação de vários factores de risco car- diovascular(2,10).
Os Quadros I e II sintetizam as reco- mendações para o rastreio e estratifi ca- ção do risco, segundo o National Choles-
terol Education Program Expert Panel on Blood Cholesterol Levels in Children and adolescents dos EUA (NCEP-EP), a Aca- demia Americana de Pediatria (AAP) e a American Heart Association (AHA)(2,3,10).
Uma vez que os níveis de colesterol obtidos na adolescência são preditivos dos niveis de colesterol na idade adulta, o rastreio deve ser considerado em todos os adolescentes(2).
OBJECTIVO O objectivo do estudo foi conhecer o
perfi l lipídico, a prevalência de sobrepeso e obesidade, a história familiar e os há- bitos alimentares de uma população de adolescentes.
MATERIAL E MÉTODOS O estudo foi realizado em adoles-
centes, dos observados durante exame global de saúde dos 11-13 anos, na Uni- dade do Farol do Centro de Saúde da Sr.ª da Hora – Matosinhos. Foram convocados
208 adolescentes, inscritos em médico de família, que completavam 13 anos no ano do estudo . Compareceram ao exame glo- bal de saúde 140 adolescentes.
Dos adolescentes avaliados, 88 foram incluídos neste estudo, sendo 50% do sexo masculino. Os critérios de exclusão foram: insufi ciência de dados relativos ao inquérito alimentar e história familiar, adolescentes portadores de pa- tologia crónica passível de infl uenciar os hábitos alimentares ou antropometria ou que condicione medicação crónica sus- ceptível de alterar os resultados do perfi l lipídico.
Foram analisados os seguintes pa- râmetros:
História familiar Foi inquirida a existência de Obesi-
dade, Dislipidémia, Diabetes, Hipertensão arterial, Enfarte agudo do miocárdio, An- gina pectoris e Acidente vascular cerebral nos familiares directos (pais avós, tios e irmãos) dos adolescentes avaliados.
Hábitos alimentares Foi aplicado um inquérito de fre-
quência alimentar, usado na Consulta de Nutrição Pediátrica do Hospital de S. Mi- guel – Oliveira de Azeméis, avaliando a frequência de consumo de vários alimen- tos e tipos de confecção culinária:
Leite, Iogurtes, Queijo, Carne de Vaca, Porco, Aves e coelho, Peixes gor- dos e magros, Marisco, moluscos e crus- táceos, Ovos, Produtos de pastelaria, confeitaria e doçarias, Refrigerantes e sumos, Bebidas alcoolicas, Grelhados, Cozidos, Estufados, Assados e Fritos.
Foram ainda avaliadas a ingestão e constituição do pequeno-almoço, meren- das, almoço e jantar, e a inclusão de fru- ta, sopa e vegetais nestas refeições.
O questionário requeria a identifi - cação, tendo sido preenchido pelos ado- lescentes, no domicilio, quando possível com a ajuda dos pais.
Antropometria O Indice de Massa Corporal (IMC)
ou Índice de Quetelet (peso em kilogra- mas dividido pelo quadrado da altura em metros) foi usado como medida de adi- posidade.
♦ Crianças e adolescentes cujos pais, avós ou tios directos com idade ≤ 55 anos, tenham aterosclerose ou suas sequelas, ou seja, doença cardiovascular prematura: aterosclerose coronária, enfarte agudo do miocárdio, angina Pectoris, HTA, doença vas- cular periférica, doença cerebrovascular, morte súbita;
♦ Pais com Colesterol total superior a 240 mg/dL;
♦ História familiar desconhecida;
♦ Crianças e Adolescentes com outros factores de risco:
� Estilo de vida sedentário, falta de exercício físico regular; � História dietética rica em gorduras particularmente saturadas;
� Obesidade; � Tensão arterial elevada; � Tabagismo; � Ingestão de álcool; � Medicações e patologias associadas a hiperlipidemia (por exemplo: diabetes mellitus, sín-
drome nefrótico, anticonvulsivantes, ácido retinoico, contraceptivos orais, corticosteroides).
Quadro I - Recomendações para Rastreio Selectivo de dislipidemia (2,3,10)
Quadro II - Estratifi cação do Risco (2,10)
Aceitável “Border-line” Risco Elevado
CT (mg/dl) <170 170-199 ≥ 200
C- LDL (mg/dl) <110 110-129 ≥130
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O IMC foi classifi cado segundo as curvas de crescimento do CDC – Centers of disease control – National Center for Health Statistics dos EUA.
Considerou-se: Sobrepeso: IMC ≥ percentil 85
<percentil 95 para sexo e idade. Obesidade: IMC ≥ percentil 95 para
sexo e idade.
Perfi l Lipidico O perfi l lipídico inclui o doseamento
de colesterol total (CT), colesterol HDL (c-HDL) e triglicerídeos (TG). Foi efectu- ado após 12 horas de jejum tendo sido realizado em laboratórios no ambulatório. O valor do colesterol LDL (c-LDL) foi cal- culado usando a fórmula de Friedewald: c-LDL=CT- [c-HDL+(TG/5]
A classifi cação do perfi l lipídico ba- seou-se nos critérios do National Choles- terol Education Program (NCEP), para o CT e c-LDL e do Lipid Research Clinics Prevalence Study (LRC), para os TG e c-HDL.
O Risco foi estratifi cado segundo o quadro II considerando-se:
• Hipercolesterolémia: CT ≥ 200 mg/dl • CT “border-line”/elevado: CT ≥ 170
mg/dl • HiperLDL-colesterolémia: c-LDL ≥
130 mg/dl • c-LDL • border-line: c-LDL ≥ 110 mg/dl • Hipertrigliceridémia: TG superior ao
percentil 95 para idade e sexo. • HipoHDL-colesterolémia: c-HDL infe-
rior ao percentil 5 para idade e sexo. Os adolescentes com colesterol to-
tal border-line e c-HDL acima deste valor foram considerados de baixo risco.
A análise estatística dos dados foi efectuada através do teste do fi sher, ten- do sido considerados signifi cativos valo- res de p<0,05.
RESULTADOS Nesta população de adolescentes
(n=88), a prevalência global de obesida- de e sobrepeso foi de 11% e 23%, res- pectivamente. Um adolescente apresen- tava magreza, ou seja, IMC inferior ao percentil 3. (Figura 1)
Constatou-se uma diferença entre sexos: a prevalência de sobrepeso e
obesidade foi de 20,5% e 6,8%, respec- tivamente, no sexo masculino e, 25% e 15,9%, no sexo feminino. Estas diferen- ças, contudo, não se revelaram estatisti- camente signifi cativas (Figura 2).
Verifi caram-se alterações do per- fi l lipidico em 26% dos adolescentes e valores de CT e /ou C-LDL “border-line” em 16%. Entre os adolescentes com dislipidemia 3,4% apresentaram hiperL- DL-colesterolémia (Hiper c-LDL); 11,4% hipoHDL-colesterolémia (Hipo c-HDL) e 14,8%, hipertrigliceridémia. (Figura 3) Segundo a classifi cação utilizada (Qua- dro II) apenas 58% dos adolescentes
apresentavam valores aceitáveis ou de baixo risco de CT e C-LDL.
A prevalência de dislipidemia entre os adolescentes com sobrepeso e obesi- dade foi de 48% e 50%, respectivamente.
A prevalência de uma história fa- miliar positiva para diabetes, obesidade, dislipidemia, HTA e doença cardiovascu- lar está apresentada na fi gura 4.
De realçar que quase metade (49%) dos adolescentes apresenta história fa- miliar de dislipidemia e 26% uma história parental positiva.
Quando comparamos as prevalên- cias de história familiar positiva para as
Figura 2 - Distribuição dos percentis de IMC por sexos
Figura 3 - Perfi l Lipídico
Figura 1 - Percentil de IMC
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patologias referidas, nos adolescentes com obesidade, dislipidemia e um sub- grupo com Hipo c-HDL em relação ao total, constatamos que:
A prevalência de história familar po- sitiva para doença cardiovascular, HTA e diabetes foi maior nos adolescentes com obesidade e Hipo c-HDL compara- tivamente à população não obesa e sem hipo c-HDL. Os adolescentes com obesi- dade apresentavam maior prevalência de familiares obesos. Estas diferenças, con- tudo, não se revelaram estatisticamente signifi cativas.
Os adolescentes com dislipidemia não apresentavam diferenças com signi- fi cado estatístico na prevalência de his- tória familar positiva para as patologias inquiridas, nomeadamente dislipidemia. A prevalência de história parental de dis-
lipidemia positiva foi igual à prevalência global (26%) (fi gura 5).
Em relação ao inquérito de frequên- cia de consumo alimentar os resultados são apresentados nos quadros III e IV.
Diariamente 90% dos adolescentes bebiam leite, na sua maioria (91%) leite meio-gordo. Em relação aos derivados, 74% e 45% ingeriam iogurtes e queijo mais de 3 vezes por semana. Destes, 59% e 52% optavam por iogurtes e quei- jos magros ou pouco gordos.
Os alimentos, como carne de vaca, porco, aves e ovos, eram ingeridos com regularidade, entre uma e 3 vezes por se- mana, na maioria dos casos. Referiram ingerir carne de vaca ou porco, diaria- mente, 13% dos adolescentes. Apenas 9% consomem peixe diariamente, encon- trando-se, uma parcela signifi cativa de
adolescentes que nunca, ou raramente, o ingeriam: 38% no caso dos peixes gor- dos, e 19%, no caso dos peixes magros. A ingestão de moluscos, mariscos e crus- táceos foi reduzida.
Em relação aos produtos de pas- telaria, confeitaria e doçarias, um quarto dos adolescentes referia consumir estes produtos diariamente, e 40% de duas a três vezes por semana. Os refrigeran- tes e sumos também são ingeridos com muita frequência: 49% dos adolescentes consomem-nos diariamente. Todos os adolescentes avaliados negaram o con- sumo regular de bebidas alcoólicas.
Em relação à confecção culinária (quadro IV), constatámos uma maior op- ção por grelhados, estufados e cozidos. Apenas 6 e 5% dos adolescentes refe- riam ingerir diariamente fritos e assados.
No que diz respeito aos constituin- tes importantes das principais refeições, como sopa, vegetais/ legumes no prato e fruta, constatámos que: 45% dos adoles- centes ingeriam, diariamente sopa, dos quais 30%, ao almoço e jantar, mas 11% referiam nunca o fazer.
Estas percentagens são menores em relação aos vegetais e legumes: apenas 26% ingerem diariamente este acompanhamento, e 14% nunca o faz. In- geriam diariamente fruta 59% dos casos: 53% como sobremesa, dos quais 43% ao almoço e ao jantar e 16%, às merendas. (Figura 6)
O grupo de adolescentes com so- brepeso ou obesidade apresentava uma menor percentagem de individuos que comiam diariamente sopa e fruta: 29 % e 32%, respectivamente.
Também o grupo de adolescentes com dislipidemia apresentava um menor consumo diário destes alimentos: 22 e 43%. Estas diferenças não se revelaram no entanto com signifi cado estatístico.
Em relação à constituição do pe- queno-almoço verifi cámos que o leite e derivados, em conjunto com cereais e derivados, entravam na constituição de 84% dos pequenos almoços. Em 15%, este era constituído apenas por leite e derivados e em 1% por cereais. Apenas dois casos incluiam a fruta ou sumo na- tural. Dos cereais, os preferidos eram os cereais de pequeno almoço (47%), segui-
Quadro IV - Frequência (%) de confecção culinária
Nunca Raro 1x/sem 2x/sem 3x/sem Diário
Cozidos 0 14 19 35 22 10
Grelhados 0 11 15 30 28 16
Estufados 0 11 27 40 16 6
Assados 0 9 50 30 6 5
Fritos 1 24 22 24 23 6
Quadro III - Frequência (%) de ingestão de diferentes grupos de alimentos
Nunca Raro 1x/sem 2x/sem 3x/sem Diario
Leite 1 3 0 0 5 90
Iogurtes 0 13 3 10 30 44
Queijo 9 24 11 11 22 23
Vaca 1 9 23 31 27 9
Porco 1 8 28 33 24 6
Aves e coelho 2 14 18 36 27 3
Peixes gordos 3 35 24 20 10 8
Peixes magros 2 17 23 30 20 8
Marisco, moluscos e crustáceos 15 73 11 1 0 0
Ovos 1 10 31 34 18 6
Pastelaria, confeitaria e doçarias 0 15 20 20 19 26
Refrigerantes e sumos 3 13 16 8 11 49
Bebidas alcoólicas 97 3 0 0 0 0
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dos do tradicional pão (39%) com mantei- ga, fi ambre ou compota. (Figura 7)
Não foram encontradas diferen- ças, estatisticamente signifi cativas, nas frequências alimentares e de confecção alimentar no grupo de adolescentes com sobrepeso e obesidade. Também os ado- lescentes com dislipidemia não apresen- tavam diferenças com signifi cado esta- tístico no consumo de ovos, moluscos e mariscos, carnes, peixe, leite gordo, fritos e assados e no caso das hipertriglicerí- demias, de produtos de pastelaria e con- feitaria, refrigerantes ou outras bebidas açucaradas.
DISCUSSÃO Nesta população de adolescentes,
a prevalência de sobrepeso e obesidade foi de 20,5% e 6,8%, no sexo masculino e 25% e 15,9%, no sexo feminino. A preva- lência global de obesidade e sobrepeso foi de 11% e 23%, respectivamente. Esta prevalência é concordante com estudos recentes nacionais na população pediá- trica(7,8) e inferior aos valores encontrados
na população americana (NHANES IV: 1999-2000)(6).
A prevalência de obesidade e so- brepeso foi maior no sexo feminino: 40,9% das raparigas e 27,3% rapazes apresentavam sobrepeso ou obesidade. Embora esta diferença não atinga signi- fi cado estatístico nesta amostra, está de acordo com outros estudos publicados em Portugal. Dados de Inglaterra e Es- panha, apontam igualmente para uma maior prevalência entre raparigas, mas, em outros paises, como a Itália, a preva- lência é maior nos rapazes(8,12).
A prevalência de dislipidemia (CT, LDL, Hipo-HDL) foi mais baixa que a encontrada no Bogalusa Heart Study, no grupo de 11-17 anos, faixa etária que mais se aproxima da estudada(9). Curio- samente, a prevalência de hipertriglice- ridemia foi ligeiramente superior (14,8% versus 8%), facto que pode estar rela- cionado com o excesso de hidratos de carbono simples, ingerido por esta po- pulação (refrigerantes, produtos de pas- telaria, cereais de pequeno-almoço, nu-
tricionalmente desiquilibrados e com alto teor de açúcares de absorção rápida), baixa ingestão de peixe e acidos gordos ómega3. O signifi cado de um valor eleva- do de triglicerídeos na infância e o risco cardiovascular em adulto não é claro mas estas alterações têm uma boa resposta à diminuição de peso e às modifi cações dietéticas(10).
A prevalência de história familiar po- sitiva para dislipidemia, nos adolescentes com dislipidemia, foi de 26%, igual à pre- valência total. Este dado está de acordo com um estudo semelhante públicado na Pediatrics, em 2004(13), que conclui que os critérios baseados no rastreio da histó- ria parental não oferecem vantagem em relação ao rastreio aleatório na identifi ca- ção de jovens com hipercolesterolémia, o que parece pôr em causa a estratégia ba- seada no risco recomendada pelo NCEP e AAP.
Os dados encontrados apoiam a recomendação do rastreio universal das alterações do perfi l lipídico na população adolescente.
Figura 7 - Constituição do pequeno almoço: consumo de cereais e derivados
Figura 4 - História Familiar Figura 5 - História Familiar
Figura 6 - Consumo de Sopa, Vegetais e Fruta
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LIPID PROFILE, PREVALENCE OF OBESITY AND DIETARY HABITS IN A POPULATION OF ADOLESCENTS
ABSTRACT Introduction: A t h e r o s c l e r o s i s
begins in childhood and progresses through adolescence and adulthood. In the last decades there has been a trend for increase of adiposity and prevalence of cardiovascular disease with associated metabolic disturbances. Prevention, early detection with treatment of these risk factors can prevent the latter development of cardiovascular disease.
There are specifi c recommendations for selective screening involving the identifi cation of various cardiovascular risk factors.
Objective: This study was conducted to evaluate lipid profi le, prevalence of overweight and obesity, family history of cardiovascular risk factors and dietary habits among 88 adolescents observed during a global health visit, in Srª da Hora Health Centre-Matosinhos.
Methods and Procedures: Body Mass Index (BMI) classifi cation was based on CDC Growth Charts- Centres of disease control- National Centre for Health Statistics dos EUA. Total cholesterol and Low-density lipoproteins cholesterol (LDL-C) classifi cation was based on National Cholesterol Education Program (NCEP) criteria. Triglycerides and Hight-density lipoproteins cholesterol (HDL-C) classifi cation was based on Lipid Research Clinics Prevalence Study. The dietary habits were evaluated by a frequency questionnaire.
Statistical analisys included Fisher test. The value of signifi cance was considered for p<0,05.
Results: Global prevalence of obesity and overweight was 11% and 23% respectively, with greater prevalence of female gender. Lipid profi le was abnormal in 26% adolescents and 16% presented borderline values. There were no differences on the frequency of ingestion of the foods inquired. The prevalence of a positive family history of abnormal lipid profi le was the same among patients with hyperlipidemia and total population.
Discussion: The high prevalence of overweight, obesity and abnormal lipid profi le in this population is particular worrisome since adolescent obesity strongly predicts obesity in adulthood and associated cardiovascular risk factors, enhancing the needs for prevention. In the dietary habits we found a low ingestion of vegetables and fi sh and high ingestion of bakery and sweet foods and beverages, a diet that is globally different from the Mediterranean diet that used to characterize us.
The results obtained are concordant with previous studies concluding that criteria for screening based on parental history seem to offer no advantage over random screening in the identifi cation of young people with abnormal lipid profi le therefore not supporting the risk based strategy recommended by NCEP and American Academy of Pediatrics.
Lipid profi le screening should be considered among all adolescents.
Keywords: Adolescents, lipid profi le, obesity, cardiovascular disease
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